INDICADORES DE TENDÊNCIA CIMILHO (85): Milho: o clube dos 100 milhões
18/12/2017 10:26:31



Rubens Augusto de Miranda

Pesquisador da área de economia agrícola da Embrapa Milho e Sorgo

Em 2012, Pedro Parente (atual presidente da Petrobras e então presidente da Bunge do Brasil) afirmou que uma produção anual de 100 milhões de toneladas de milho pelo Brasil não seria um sonho tão distante. Seu discurso ocorreu em um momento em que a produção de milho no país batia recordes e quebrava paradigmas, quando a safrinha superava pela primeira vez a safra de verão.

Na ocasião, foram colhidas 72,9 milhões de toneladas na safra 2011/12, quantidade 27% superior ao produzido em 2010/11. Apesar do recorde de produção, talvez o grande destaque tenha sido as 39,1 milhões de toneladas de milho colhidas na segunda safra, frente às 33,9 milhões de toneladas da primeira. Esse fato dava os indicativos do que estava por vir, pois alguns anos depois a segunda safra eclipsaria a primeira safra não apenas em alguns milhões de toneladas, mas superando a marca de dois terços da produção total no ano agrícola.

Apesar de a marca predita por Parente ainda não ter sido alcançada, o 8º Levantamento da Safra de Grãos 2016/17 da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indica a obtenção de outra marca história. Pela primeira vez a oferta de milho em um ano agrícola superará 100 milhões de toneladas.

Até o momento, a projeção da colheita de milho pela Conab para 2016/17 é de 92,8 milhões de toneladas, que somadas às 8 milhões de toneladas dos estoques de passagem da safra anterior e às 500 mil toneladas importadas totalizam 101,3 milhões de toneladas.

O aumento da produção de 26 milhões de toneladas em relação à safra 2015/16 já está pressionando as cotações do milho para baixo. Os preços do grão vêm caindo sucessivamente no país desde agosto do ano passado. Mesmo com uma previsão otimista de exportação do cereal para 2016/17, a produção é tão grande que a Conab aponta em suas projeções estoques de passagem do milho na ordem de 19 milhões de toneladas.

O estoque é um importante balizador de preços, pois basicamente indica quanto da oferta está “sobrando” ou excedendo a demanda. A projeção de estoques de milho no fim do atual ano agrícola é outro dos recordes que estaremos presenciando. Até então, os maiores estoques ao fim de uma safra foram os 12,3 milhões de toneladas de 2013/14. Não é coincidência que, em meados de 2014, foi a última vez que a cotação média da saca de milho no país ficou abaixo de R$ 20.

Outro indicador frequentemente utilizado para analisar as tendências de preços agrícolas é a relação estoque/consumo. Pelos dados da Conab, enquanto essa relação foi de 22,6% em 2013/14, a projeção para 2016/17 é de 34,3%. O que é mais uma evidência de que os preços do milho podem continuar caindo ao longo de 2017.

Frente ao cenário pouco animador de preços, já começou a movimentação para garantir aos produtores valores minimamente remuneradores. Recentemente, foi noticiado que a Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP) solicitou ao Mapa a utilização de R$ 100 milhões dos instrumentos de apoio à comercialização para a cultura do milho no estado. A ideia da FAEP é garantir o preço mínimo, R$ 19,21, para pelo menos 3 milhões de toneladas do cereal.

Para finalizar, voltemos ao pensamento inicial. O resultado fantástico para o qual se encaminha a atual safra de milho significa que a profecia de Parente pode se confirmar no ano que vem? Provavelmente não. O impacto negativo nos preços decorrente da oferta extraordinária deve frear o aumento da produção. Entretanto, fica a mensagem de que, com mais uma marca histórica quebrada, a produção anual de 100 milhões de toneladas de milho não parece um sonho tão distante para o Brasil.


Guilherme Viana (MTb / MG 06566 JP)
Jornalista da Embrapa Milho e Sorgo
Tels: (31) 3027-1272 / (31) 9733-4373
gfviana@cnpms.embrapa.br

 

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