INDICADORES DE TENDÊNCIA CIMILHO (87): A retomada das exportações de milho no segundo semestre
18/12/2017 10:33:28



Rubens Augusto de Miranda

Pesquisador da área de economia agrícola da Embrapa Milho e Sorgo

Após o ano de exportações recordes de milho em 2015, quando as vendas externas se aproximaram de 30 milhões de toneladas, os preços explosivos mudaram o cenário do cereal no ano seguinte. Em 2016, as exportações iniciaram aquecidas, em patamares recordes, mas perderam o fôlego no decorrer do ano, fechando o quarto trimestre com o pior resultado para o período desde 2008. Há duas razões básicas para a queda das exportações, uma interna e outra externa.

Internamente, os altos preços domésticos do milho em 2016 contrabalançaram o câmbio favorável às exportações existente no País a partir de 2015. Segundo os dados do Agrolink, o preço médio nacional da saca de milho em junho de 2016 alcançou o patamar surreal de R$ 44,44, o que é algo sem precedentes no histórico de comercialização do grão no Brasil.

Externamente, a supersafra de milho nos Estados Unidos (que colheu 384,78 milhões de toneladas, segundo o Departamento de Agricultura (USDA)) provocou a redução dos preços internacionais do cereal. A cotação de US$ 148,43 a tonelada de milho no mercado internacional em setembro de 2016 foi a menor desde julho de 2007.

A soma da explosão dos preços domésticos com as baixas cotações no mercado internacional fez o milho brasileiro perder competitividade e espaço lá fora. Assim, o melhor resultado do primeiro trimestre da história, das exportações brasileiras de milho, foi compensado pelo pior quarto semestre dos últimos 8 anos. Os 3,1 milhões de toneladas de milho embarcado no último trimestre de 2016 representaram uma queda de 13,5 milhões de toneladas em relação ao respectivo período de 2015, quando foram exportadas 16,6 milhões de toneladas.

Passando para 2017, no primeiro semestre, prosseguiu a baixa nas exportações de milho, apresentando uma queda considerável em relação à primeira metade de 2016. Os embarques caíram de 12,2 milhões de toneladas do ano anterior para 3,2 milhões de toneladas.

Se não bastasse a queda da demanda pela baixa nas exportações, as notícias de uma produção recorde no avanço da segunda safra precipitaram as cotações de milho ladeira abaixo. A cotação nacional média da saca do cereal em junho de 2017 foi 52% menor do que o observado no respectivo mês de 2016, queda de R$ 44,44 para R$ 21,38.

A baixa dos preços domésticos do milho favoreceu a retomada das exportações a partir de julho, proporcionando três meses de recordes sucessivos e um ótimo mês de outubro, que com 5 milhões de toneladas só não superou o resultado do respectivo mês de 2015. No quadrimestre de julho-agosto-setembro-outubro foram exportados 18,5 milhões de toneladas de milho, acréscimo de quase 6 milhões de toneladas ao melhor resultado já visto para esse quadrimestre, em 2015. Caso as vendas externas permaneçam nesse patamar até o final do ano, provavelmente teremos superado o melhor resultado já obtido, que sãos os 28,9 milhões de toneladas em 2015.

Contudo, apesar da potencial superação da quantidade exportada de 2015, o mesmo não deve ocorrer no faturamento. As 18,5 milhões de toneladas de milho exportadas no último quadrimestre foram embarcadas pela média de US$ 154,62 a tonelada, o que é a menor cotação desde outubro de 2009, quando as vendas tiveram uma média de US$ 149,23 a tonelada.

Analisando os destinos do milho brasileiro, adicionalmente aos países tradicionalmente compradores, como Irã, Japão, Coreia do Sul, etc., a União Europeia é uma das principais responsáveis pelo aquecimento recente das exportações. Até o momento, os europeus adquiriram 3,4 milhões de toneladas de milho, representando um aumento de 2,35 milhões de toneladas em relação aos 12 meses de 2016. Além disso, é a maior quantidade de milho embarcada para a Europa desde o biênio 2007/08. Dentre os países europeus, merecem destaques os ibéricos, a Espanha com quase 2 milhões de tonelada adquiridas e Portugal com quase 500 mil toneladas.

Segundo o USDA, o Brasil e a Ucrânia foram os responsáveis por satisfazer o aumento das importações de milho da União Europeia, o que é um demonstrativo da competitividade do milho brasileiro, pois a safra recorde do cereal nos Estados Unidos aumentou consideravelmente a disponibilidade do grão no mercado internacional.

Outra região que merece destaque como destino que apresentou aumento é o Norte da África. As exportações para o Marrocos já superaram em 250 mil toneladas a quantidade embarcada em todo o ano de 2016. Porém, o grande destaque da região vai para o Egito, que já aumentou em mais de 1 milhão de toneladas as aquisições do cereal em relação ao ano passado, superando a marca de 1,5 milhões de toneladas.

Para os próximos meses, o comportamento das exportações será fundamental para a consolidação do cenário do milho em 2018/19. Isso porque a redução da área plantada de milho no verão 2017/18 e a consequente diminuição da produção na primeira safra são informações que pressionam para cima o preço do milho. Além disso, os atrasos na safra de soja também podem ter um impacto negativo na segunda safra de milho em 2018, pois a perda da janela de plantio diminuirá a área plantada e o investimento das lavouras do cereal no inverno, caso os preços não sejam tão compensadores. Assim, o cenário de diminuição de oferta poder ser acentuado ou equilibrado pelas exportações. Caso a recuperação das vendas externas continue, a cotação doméstica do milho deve retornar a patamares bem remuneradores, garantindo a manutenção dos investimentos na segunda safra. Por fim, o que nos resta no momento é acompanhar o desenrolar desta história.

 

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